Desistir de uma meta pode ser a melhor decisão, diz autora
Lindsay Crouse, ex-New York Times, reúne em livro cinco ideias para tratar a saída de um projeto como opção legítima, não como fracasso.

Desistir de uma meta que deixou de fazer sentido pode liberar o tempo, a energia e as oportunidades de que a pessoa precisa para construir outra coisa. É a tese da jornalista Lindsay Crouse em The Case for Quitting, livro novo cujas cinco ideias centrais ela resumiu em texto publicado pela Fast Company.
Crouse trabalhou 15 anos no The New York Times e é maratonista. Os exemplos do resumo vêm de áreas como esporte, carreira artística e saúde, não só do emprego, mas o raciocínio vale para quem decide sobre a própria trajetória ou orienta quem está nessa situação.
Quando a persistência atrapalha
Para a autora, a cultura valoriza a perseverança com razão, mas a insistência fora de hora leva a pessoa a gastar dinheiro, tempo e energia em objetivos que ela não tem poder de alcançar. Concentrada na tarefa, ela deixa de perceber o custo que se acumula.
Ela cita uma mulher que passou uma década e milhares de dólares em tratamentos de fertilidade, até aceitar que não funcionavam. Um ano depois de parar, engravidou naturalmente. Cita também uma aspirante a atleta olímpica cujo treino rigoroso virou excesso e lesão. Para as duas, diz Crouse, continuar só traria mais fracasso.
O medo de largar costuma ser exagerado
Segundo a autora, o receio mais comum é o julgamento alheio. Ela lembra o chamado efeito holofote, o viés cognitivo que nos faz achar que os outros prestam mais atenção às nossas escolhas do que prestam de fato. Uma atriz que abandonou a carreira temia a reação do círculo de origem, que reagiu com apoio.
Há ainda o medo do próprio arrependimento. Crouse afirma que, ao longo da vida, tendemos a lamentar mais a inação do que a ação. Adiar a decisão, diz ela, apenas transfere as mesmas perguntas, com apostas maiores, para a versão mais velha de nós mesmos.
Sair aos poucos reduz o risco
A imagem do pedido de demissão em um acesso de raiva raramente é a mais saudável, segundo a autora. Ela menciona um estudo em que aspirantes a empreendedores que mantiveram o emprego enquanto montavam o próximo passo tiveram mais chance de sucesso do que os que saíram de vez. O resumo não informa autoria nem amostra da pesquisa.
O exemplo é o cantor Bill Withers. Ele fabricava assentos de vaso sanitário para aviões em Los Angeles e tocava violão em clubes à noite. Manteve o emprego mesmo depois de "Ain't No Sunshine" virar sucesso, e só se dedicou à música quando foi demitido, já com talento, confiança e reserva financeira.
A resistência das mulheres tem custo
Crouse escreveu em 2018 no New York Times sobre uma Maratona de Boston sob chuva gelada, na qual as mulheres terminaram em proporção maior que os homens. No livro, ela pergunta se tanta resistência é benéfica. Segundo a autora, as mulheres vivem mais, mas não melhor: têm mais dor crônica, insônia e enxaqueca, e mais probabilidade de tomar remédio para ansiedade e depressão.
Ela observa também que as mulheres se formam em proporção maior que os homens, mas têm renda menor e ocupam menos cargos de liderança. A pergunta que deixa é como moderar a capacidade de aguentar tudo antes que ela se torne um freio.
Desistir também abre caminho
A aspirante a atleta olímpica parou de correr por anos, constituiu família, arrumou um emprego regular e achou outros interesses. Quando voltou a correr, por prazer, ficou cada vez mais rápida e acabou batendo o recorde nacional da maratona do país dela, que o texto não nomeia.
Crouse diz que a questão não é tratar a desistência como truque de sucesso. É considerá-la uma opção real, em vez de apenas uma porta que se fecha, já que ela costuma abrir outras de formas imprevisíveis.
Perguntas frequentes
O livro de Lindsay Crouse trata só de largar o emprego?
Não. Os casos do resumo incluem tratamento de fertilidade, carreira de atleta e de atriz. A ideia geral é a de abandonar metas que deixaram de servir à pessoa.
Por que o medo do julgamento alheio pode ser exagerado?
Segundo a autora, o efeito holofote nos leva a achar que os outros observam nossas escolhas mais do que observam. Na história da atriz, os conhecidos reagiram com apoio.
É melhor pedir demissão de uma vez ou sair aos poucos?
Crouse cita um estudo em que aspirantes a empreendedores que mantiveram o emprego enquanto preparavam o próximo passo tiveram mais chance de sucesso. O resumo não traz detalhes da pesquisa.